Entre o Desejo e o Pragmatismo: Os Dois Extremos do Negócio Automóvel nos EUA

A Monterey Car Week costuma ser aquele palco onde o mundo automóvel mostra o que tem de mais excessivo e apaixonante. Foi exatamente lá que o Alfa Romeo 33 Stradale fez a sua grande estreia em solo americano, reacendendo sem grande esforço o estatuto da marca de Arese como mestre do design. Apresentado com pompa como “o carro mais bonito do mundo”, este ícone renascido tem um preço estimado na casa dos 1,7 milhões de euros. Mas se por acaso tem esse dinheiro a estorvar na conta, esqueça o assunto: as parcas 33 unidades produzidas voaram num instante. Colecionadores e algumas caras bem conhecidas não perderam tempo a disputar e a agarrar cada um dos exemplares disponíveis, transformando o carro num objeto de culto imediato.

Revelado originalmente no verão de 2023, o modelo é uma ode descarada ao saudoso Tipo 33 Stradale de 1967. A Alfa Romeo não poupou no hardware para justificar a exclusividade e a estética retro. Quem conseguiu reservar o seu teve de escolher o ‘veneno’ da sua preferência. A primeira opção é um bloco V6 biturbo de 3.0 litros a debitar 620 cv, acoplado a uma caixa automática ZF de dupla embraiagem com oito relações e tração integral. A alternativa é uma variante 100% elétrica que puxa os números para uns obscenos 750 cv, garantindo cerca de 490 km de autonomia à boleia de uma bateria de 90 kWh. Com qualquer uma das motorizações, a ficha técnica atira o supercarro para os 100 km/h em menos de 3 segundos, cravando o velocímetro numa velocidade máxima de 333 km/h.

Durante a sua passagem pelos Estados Unidos, o 33 Stradale andou numa verdadeira ’tourné’ para a elite. Marcou presença na Motorlux ao lado do Giulia, do Stelvio e do Tonale, e desfilou na Hagerty House em Pebble Beach, onde os convidados puderam ver as suas linhas ao pormenor. Dividiu ainda holofotes no The Quail com outras raridades e, para provar que a Alfa tem o desporto automóvel cravado no ADN, deu um saltinho ao alcatrão do WeatherTech Raceway Laguna Seca. Como o CEO Jean Philippe Imparato já tinha deixado no ar, este é um carro que vai ser praticamente impossível de cruzar na estrada, destinado a envelhecer em garagens climatizadas enquanto o seu valor dispara.

Mas enquanto a Califórnia suspira por supercarros italianos de produção super limitada, no outro lado do país a espinha dorsal do verdadeiro negócio automóvel mexe-se com um pragmatismo muito diferente. Longe dos relvados imaculados e dos leilões de milhões por carros de sonho, o mercado de retalho vive de volume de vendas e de posições geográficas estratégicas. E é aqui que a Tameron Automotive Group, sediada em Birmingham, fez a sua mais recente jogada de bastidores, despachando o seu concessionário líder no mercado da Geórgia, a Toyota of Newnan.

Os donos da operação, Danny Braden e Rob Gallik, fecharam negócio com a gigante AutoNation por valores que não vieram a público, mas que envolvem seguramente uma fatia grossa de capital. Afinal, não se trata de uma loja qualquer: este concessionário sozinho morde cerca de 22% de todas as vendas de carros novos na sua zona de influência. É curioso notar que a AutoNation andava há mais de uma década sem meter a mão num stand da marca nipónica, o que só sublinha a apetência voraz por esta localização em particular, situada nos subúrbios em expansão acelerada da zona de Atlanta.

Toda a operação foi oleada pelos especialistas da Kerrigan Advisors e reflete uma clara mudança de rumo para a Tameron. Nas palavras do próprio Danny Braden, chegou simplesmente a altura de agarrar nos recursos do grupo e focar baterias no mercado caseiro do Alabama. Gabe Robleto, diretor na Kerrigan, não teve problemas em classificar a loja como uma das mais valiosas da região. No fim do dia, a indústria automóvel alimenta-se destas duas realidades aparentemente distantes: a paixão irracional por peças de arte milionárias que esgotam antes de existirem, e o jogo de xadrez do retalho massificado que sustenta financeiramente todo o setor.