Destinos de Sabor: Da Alma Tripeira ao Coração do Alabama

A gastronomia é, não raras vezes, o espelho mais fiel da identidade de um povo e de um território. Nem todas as cidades têm o privilégio de possuir um prato que resuma a essência das suas gentes, mas o Porto é uma dessas honrosas exceções. A procura por sabores autênticos e carnes invulgares não conhece, contudo, fronteiras geográficas. Esta vontade de provar algo absolutamente único partilha uma filosofia que atravessa oceanos, encontrando um eco surpreendente em paragens tão improváveis como o sul dos Estados Unidos.

O Peso da História num Prato Existem diferentes teorias em torno do nascimento da receita que acabou por batizar os habitantes da Invicta como “tripeiros”. A narrativa mais popular e amplamente divulgada por historiadores como Joel Cleto viaja até 1415. Na altura em que se preparava a expedição a Ceuta, liderada pelo rei D. João I, a cidade entregou toda a sua carne limpa para abastecer a frota de marinheiros. À população restaram apenas as miudezas e foi através dessa escassez que a genialidade local cozinhou a lenda. Manuel Moura, proprietário do conhecido restaurante Líder, garante que esta continua a ser a versão mais sólida da história.

Há quem defenda, no entanto, a necessidade de recuar ainda mais no tempo, algures até ao século I a.C. Os suevos, um povo bárbaro de origem germânica que se fixou no Noroeste da Península Ibérica após a desintegração do Império Romano, já incluíam os estômagos de vaca na sua dieta regular. Terão sido eles a deixar as primeiras sementes deste hábito alimentar na região.

Independentemente da sua génese, as “Tripas à moda do Porto” estiveram em risco de desaparecer das mesas. Em 2001, durante o rescaldo da crise das “vacas loucas”, um grupo de defensores da tradição nortenha avançou com a criação da Confraria Gastronómica das Tripas à Moda do Porto. Fundador e atual presidente da organização, Manuel Moura explica que a intenção era muito clara: travar a extinção desta herança, promover o prato e defender a autenticidade da cozinha tripeira. A julgar pela vitalidade das ementas atuais, a missão foi cumprida com enorme sucesso.

A Arte da Confeção e os Templos da Tradição Preparar este emblema portuense exige paciência e técnica rigorosa. Os ingredientes dão entrada nas cozinhas com dias de antecedência, uma vez que as tripas precisam de repousar em água e limão durante a noite. A mão de vaca é cuidadosamente queimada a maçarico para eliminar qualquer pelo e os folhos pedem, no mínimo, três horas de cozedura atenta. Depois de prontas, a regra dita que se comam sempre a ferver. Álvaro de Campos já o imortalizou por escrito, sublinhando que a dobrada, e era à moda do Porto, “nunca se come fria”.

Para degustar a receita como manda a tradição, a cidade está repleta de moradas de culto. No Líder (na Alameda Eça de Queirós), a dose custa 27,5 euros e é servida diariamente aos clientes. Trata-se de um poiso seguro tanto para os portuenses como para turistas espanhóis e brasileiros, que aqui encontram ainda o histórico Bacalhau à Gomes de Sá nos meses frios, a perdiz estufada com castanhas ou um apaladado arroz de robalo com coentros.

Junto à marginal do rio, na Rua do Ouro, a Adega Rio Douro respira um ambiente bem diferente. Conhecida também por Tasca da Piedade, a casa é comandada há décadas por Piedade Rodrigues e pela filha Alice. Com a ponte e a comunidade piscatória da Afurada no horizonte da esplanada, o interior revela uma decoração dominada pelo universo fadista, destacando-se uma pintura de Amália Rodrigues na parede de pedra. O espaço, que antes da pandemia enchia nas tardes de terça-feira ao som do fado vadio, cheira a rojões, a lulas e a papas de sarrabulho. É obrigatório provar a sandes de isca de bacalhau e, à quinta-feira, as tripas chegam à mesa por apenas 5 euros.

Outra verdadeira instituição é o Solar do Moinho de Vento (na Rua de Sá Noronha). A funcionar ininterruptamente desde 1905, este restaurante é visto por muitos como a cantina da cidade. Elege também a quinta-feira para apresentar as suas Tripas à portuense por 14,5 euros, dedicando os restantes dias a tachos como o rancho à segunda-feira, a favada à moda da avó Ermelinda à terça ou os sames de bacalhau ao sábado.

Uma Viagem Inesperada ao Alabama Esta profunda devoção à carne e às tradições ímpares não é um exclusivo das ruelas da cidade do Porto. Bem longe dali, quem procura experiências singulares que justifiquem um desvio de rota encontra um fenómeno paralelo. Em Sardis City, no estado norte-americano do Alabama, um restaurante conseguiu destacar-se na paisagem por oferecer um cardápio totalmente fora do vulgar.

O Bama Bucks Steakhouse foi eleito pelo portal Tasting Table como o melhor restaurante de pequena cidade no Alabama, graças à sua ementa exótica e ao ambiente improvável que proporciona. De portas abertas desde 2018, tornou-se num destino de culto no sul do país. Em vez dos clássicos bifes americanos, os clientes sentam-se à mesa para pedir pratos arrojados como a lasanha de bisonte, o bife de alce da Nova Zelândia ou a carne de veado.

A experiência deste espaço vai, aliás, muito além dos pratos. A propriedade alberga um gigantesco parque de vida selvagem e animais exóticos com mais de trezentas espécies. Entre uma refeição e outra, os visitantes têm a oportunidade de passear pelo terreno e cruzar-se com ursos negros, lémures brincalhões e cangurus.

Seja através de um prato centenário forjado na história dos descobrimentos portugueses ou de um bife de alce servido numa localidade americana, a mesa continua a ser um poderoso íman. Molda a cultura local e convence os mais curiosos a fazerem quilómetros apenas pela promessa de uma grande refeição.