Crise no sector TVDE e o papel crescente do seguro marítimo no comércio global
O panorama da mobilidade e do comércio internacional enfrenta desafios distintos, mas interligados pela necessidade de sustentabilidade económica. Enquanto em Portugal o sector do Transporte Individual e Remunerado de Passageiros em Veículos Descaracterizados (TVDE) dá sinais de exaustão, o mercado global de seguros de carga marítima prepara-se para uma expansão robusta, impulsionado pela complexidade das cadeias de abastecimento.
Sinais de alerta no mercado nacional de TVDE
A Associação Portuguesa de Transportadores em Automóveis Descaracterizados (APTAD) lançou recentemente um aviso sério sobre a “desregulação galopante” que afecta o sector em Portugal. Segundo a associação, os dados de 2025 do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) confirmam um cenário de exaustão económica. Embora o número de veículos ativos tenha subido de 34.400 para mais de 36.400 em menos de um ano, esta subida não parece ser acompanhada por um aumento real da procura.
Na verdade, o sector vive hoje abaixo do limiar da viabilidade. A APTAD aponta para uma precariedade gritante: há demasiados carros para o número de serviços, o que resulta em motoristas com rendimentos insuficientes e uma rotatividade constante. É um modelo de negócio que, na prática, se sustenta à custa da instabilidade de quem trabalha. Um dos dados mais preocupantes revela que o número de condutores ativos representa apenas metade dos motoristas certificados, o que espelha a falta de perspetivas e de estabilidade profissional nesta actividade.
A pulverização do mercado e a eficiência perdida
Outro ponto crítico prende-se com a estrutura empresarial. O aumento do número de operadores, que ultrapassou as 14.100 entidades em 2025, não é sinónimo de força, mas sim de uma fragmentação excessiva em microempresas de um único veículo. Estas pequenas estruturas dependem totalmente das plataformas e carecem de capacidade financeira para garantir vínculos laborais estáveis.
A eficiência económica também está em causa. Idealmente, num mercado saudável, cada veículo deveria operar em dois turnos com dois motoristas, permitindo diluir os custos fixos. Contudo, a realidade actual mostra um rácio de quase um motorista por veículo. Sem dados claros do IMT sobre o número de viagens ou definições precisas do que é um “condutor ativo”, a análise pública do sector fica limitada, dificultando a implementação de soluções urgentes. A APTAD estima que, com as tarifas atuais, seja matematicamente impossível um motorista auferir o equivalente ao salário mínimo sem trabalhar horas excessivas, apelando por isso a uma revisão legislativa imediata.
O crescimento do seguro de carga marítima num mundo de riscos
Se em terra o sector dos transportes enfrenta dificuldades estruturais, no mar o cenário é de crescimento cauteloso mas firme. O mercado global de seguros de carga marítima deverá crescer a uma taxa anual de 5,84% entre 2026 e 2032. Este avanço é sustentado pelo aumento do volume do comércio mundial e pela necessidade crescente de proteger mercadorias de alto valor contra riscos cada vez mais complexos nas cadeias de abastecimento.
Em 2025, este mercado foi avaliado em cerca de 22,4 mil milhões de dólares, prevendo-se que atinja quase 36 mil milhões de dólares até ao final do período em análise. A região da Ásia-Pacífico mantém-se na liderança incontestável, detendo cerca de 38,42% da quota de mercado em 2026, muito graças ao poder de exportação de gigantes como a China, o Japão e a Coreia do Sul.
Segmentos dominantes e o futuro da protecção
No que toca ao tipo de cobertura, as apólices de “Todos os Riscos” continuam a ser as favoritas, representando 57% do mercado em 2026. Esta preferência justifica-se pela protecção abrangente que oferecem contra danos, roubos e desastres naturais. Paralelamente, os bens industriais, como maquinaria pesada e componentes de produção, constituem cerca de 33% do valor segurado, dada a sua importância crítica e elevado custo de substituição.
Gigantes do sector segurador, como a Allianz, AXA e Chubb, continuam a moldar este mercado através de modelos de subscrição avançados. Tal como no sector TVDE em Portugal, a evolução destes mercados dependerá da capacidade de adaptação às novas realidades económicas e da utilização de dados precisos para gerir a incerteza de um mundo em constante movimento.





