O regresso ao papel: uma resposta analógica ao desafio da Inteligência Artificial na educação

Nas salas de aula da Escola Secundária Southwest, em Fort Worth, o cenário contrasta vivamente com a habitual paisagem digital do ensino moderno. Em vez do brilho azulado dos ecrãs, encontram-se pilhas de folhas e cadernos sobre as mesas. Chanea Bond, professora de Literatura Americana, tomou uma decisão radical: trocou os computadores portáteis, distribuídos pela escola, por canetas e muito papel. O objetivo é claro e intransigente: manter a inteligência artificial generativa fora do processo de aprendizagem dos seus alunos.

Quem entra numa das turmas de Bond depara-se com estudantes a escrever à mão, uma prática que se tornou constante e consistente. Cada aula começa invariavelmente com alguns minutos de escrita num diário e a quase totalidade dos trabalhos deve ser entregue em formato manuscrito. A docente, que leciona num distrito escolar servindo maioritariamente alunos de contextos socioeconómicos desfavorecidos, considera que o regresso ao analógico é a forma mais eficaz de garantir que a aprendizagem acontece de facto.

A experiência falhada com a tecnologia

A postura de Chanea Bond não nasceu de uma aversão infundada à tecnologia. Inicialmente, tentou integrar a IA no currículo, propondo aos alunos a análise do poema “Still I Rise”, de Maya Angelou, permitindo o recurso a ferramentas digitais para a construção da tese. O resultado, segundo a professora, foi desastroso. Tornou-se evidente que os estudantes que utilizaram a IA não se envolveram verdadeiramente com o texto, externalizando o pensamento crítico para a máquina e falhando na construção de argumentos próprios. Percebeu, então, que os alunos não conseguiam discernir se o conteúdo gerado tinha valor e que lhes faltavam competências basilares.

Para evitar atalhos cognitivos, Bond disponibiliza dicionários físicos na sala de aula, eliminando a necessidade de recorrer à tecnologia para consultas vocabulares, e utiliza por vezes manuais de bolso para estimular o debate literário. Aos críticos que questionam se esta abordagem não deixará os jovens atrasados em relação às exigências tecnológicas, a resposta é perentória: o essencial é que saibam pensar e escrever autonomamente.

A importância da prática escrita no currículo

Esta preocupação com a autenticidade da escrita ganha especial relevância quando analisamos as exigências curriculares, nomeadamente na disciplina de Língua Portuguesa e nos Exames Nacionais. A avaliação da capacidade de expressão escrita é uma constante, exigindo-se habitualmente a produção de textos estruturados entre 180 a 200 palavras. Sem o treino do pensamento crítico defendido por Bond, estas tarefas tornam-se exercícios mecânicos.

Para cultivar a “voz académica” dos alunos — muitos dos quais duvidam da sua própria capacidade de expressão formal —, é fundamental diversificar as temáticas e os géneros textuais, oferecendo oportunidades de escrita criativa e argumentativa sem a muleta digital.

Quando as ideias escasseiam, o foco deve voltar-se para propostas concretas que estimulem diferentes tipologias textuais:

  • No Texto Descritivo, o aluno é desafiado a observar e relatar pormenores, abordando temas como as férias (sejam de Natal, Páscoa ou Verão), a descrição de uma viagem de sonho, o primeiro dia de aulas, um passeio memorável ou a evocação afetiva da terra dos avós.

  • No Texto Narrativo, a imaginação ganha primazia. Sugere-se a criação de enredos sobre uma viagem a uma ilha deserta, encontros com super-heróis, diálogos surreais com animais falantes ou a dinâmica da chegada de um novo aluno à escola.

  • No Texto de Opinião, crucial para o desenvolvimento da cidadania, temas atuais servem de base à argumentação: as duas faces da Internet, o flagelo do bullying escolar, a violência no desporto, o uso excessivo do telemóvel ou a importância da amizade.

  • No registo Poético, trabalha-se a sensibilidade através de motes intemporais como a família, o amor, a natureza ou dedicatórias a pessoas especiais.

Um contraciclo pedagógico

A abordagem analógica de Chanea Bond coloca-a, de certa forma, em contraciclo. Dados recentes de um inquérito do EdWeek Research Center, datado de julho de 2025, sugerem que os educadores estão a abraçar a tecnologia em vez de a rejeitar: cerca de 60% dos professores inquiridos afirmaram utilizar inteligência artificial nas suas aulas.

No entanto, para Bond, o diário manuscrito e o afastamento dos ecrãs continuam a ser as melhores ferramentas para construir confiança. Ao criar oportunidades de “baixo risco”, onde o foco está no processo e não apenas no resultado final, a professora consegue acompanhar a evolução real da voz de cada estudante, garantindo que, no final do dia, a autoria do pensamento lhes pertence inteiramente.